Babel fish
Tuesday, February 19th, 2008Naquele tempo toda a humanidade falava uma só língua. (…) E nessa cidade [Babilónia] projectaram levantar um templo com a forma de uma torre altíssima que chegasse até aos céus, qualquer coisa que se tornasse um monumento a si próprios. Isto, disseram, impedirá que nos espalhemos ao acaso pela terra toda. O Senhor desceu para ver a cidade e a torre que estavam a levantar:
Vejamos: se isto é o que eles já são capazes de fazer, sendo um só povo com uma só língua, não haverá limites para tudo o que ousarem fazer. Vamos descer e que a língua deles comece a diferenciar-se noutras línguas, de forma que uns não entendam os outros.
E foi dessa forma que o Senhor os espalhou sobre toda a face da terra, tendo cessado a construção daquela cidade. Por isso ficou a chamar-se Babel , porque foi ali que o Senhor diferenciou a língua dos homens, e espalhou-os por toda a terra.
Génesis 11:1-9 - A Torre de Babel

A acreditar nos mitos, somos levados a crer que a proliferação de línguas é um castigo, seja ele do Nosso Senhor, pai castigador, na Igreja Católica, como castigo pela nossa arrogância de acreditar na nossa capacidade enquanto entidade colectiva. Seja, como castigo de Brahma, um deus Hindu, que dicidiu castigar uma árvore demasiado orgulhosa por também acreditar no Homem:
Aqui cresceu, no centro da Terra a maravilhosa “árvore do mundo”, ou “árvore do conhecimento”. Era tão alta que quase chegava ao céu. Dizia no seu coração: “Repousarei a minha cabeça no céu e espalharei os meus ramos por toda a Terra e reunirei todos os Homens debaixo da minha sombra, protegê-los-ei e impedirei que se separem.” Mas Brahma, para castigar o orgulha da árvore, cortou os seus ramos e lançou-os para dentro da Terra e fez diferenças nas crenças, nas línguas e nos costumes que prevalecem na Terra, dispersando os Homens pela sua superfície.
Seja, segundo os Wa-Sania, um povo Bantu Africano, devido a uma loucura generalizada que surgiu no decorrer de uma severa escassez de alimentos, fazendo com que as pessoas que inicialmente falavam todas uma só língua, vagueassem em todas as direcções, vociferando estranhas palavras, dando origem às diferentes línguas.
Seja por uma disputa de Deuses, segundo a Mitologia Grega, em que Hermes instigou a diversidade das línguas juntamente com a separação das nações, que viviam desde sempre sob o governo de Zeus. Levando Zeus a perder o prazer no governo dos destinos do Homem, entregando-o ao primeiro rei Homem: Foroneus.
Está sempre presente a punição, de alguma forma, e o resultado negativo da incompreensão entre povos.
Estive neste fim de semana a jantar em casa de um amigo meu. Eram cerca de vinte pessoas, seis línguas. Sete, se contarmos com o inglês. Era curioso ver como no meio desta pequena Babilónia, debaixo do calor dos aquecedores que nos protegiam dos sete graus negativos, as conversas faziam-se poliglotamente.
A linguagem já de si é um filtro, entre o que pensamos e o que conseguimos exprimir. Uma linguagem não materna é ainda outro filtro, ainda mais grosseiro. Regredimos aos dezasseis anos, sem possibilidade de brincar com a língua. É o último resquício do castigo divino. Incapaz de impedir a comunicação procura, numa última tentativa, escamotear.
Eu tenho um sonho. Um dia em que cada um possa falar a sua língua materna e que possa ser compreendido por todos. Talvez seja difícil assimilar todas as linguas do mundo num cérebro tão pequeno. Resta-me esperar que encontremos o Babel fish:
The Babel fish is small, yellow and leech-like, and probably the oddest thing in the Universe. It feeds on brainwave energy received not from its own carrier but from those around it. It absorbs all unconscious mental frequencies from this brainwave energy to nourish itself with. It then excretes into the mind of its carrier a telepathic matrix formed by combining the conscious thought frequencies with nerve signals picked up from the speech centres of the brain which has supplied them. The practical upshot of all this is that if you stick a Babel fish in your ear you can instantly understand anything said to you in any form of language.
The Hitchhicker’s Guide to the Galaxy - Douglas Adams
Fica aqui uma brincadeira com a língua:

