A primeira ida a Roterdão
Sunday, January 27th, 2008Roterdão fica tão perto: 5 minutos de comboio. Mais perto até do que ir de minha casa em Lisboa à Baixa. No entanto o efeito psicológico de mudar de cidade pesa um pouco e só ao fim de três semanas é que fui a Roterdão pela primeira vez.
Fui com o Daniele, já hora avançada (para quem quer ir ver uma cidade e está em terras mais a norte): 16:30. Lá fomos, todos contentes, rumo a Roterdão. À chegada constatámos logo que Delft é uma terriolazita e que Roterdão é uma cidade. Ainda que à escala holandesa, o que leva a uns 500.000 habitantes, mais ou menos.
À saída da estação sentimos logo a nossa pequenês e a altivez das três torres de vidro que se elevam elegantemente para o céu. Caminhamos pelo meio das ruas apinhadas de gente, sim apinhadas. Cheias de lojas, cafés e restaurantes. O festival internacional de cinema de Roterdão está presente em cada esquina, com a sua mascote (um tigre) desenhada em muitas paredes. Tenho de ir esta semana que vem ver uns filmes, não muitos porque os 9€ por filme não são muito convidativos.
Lá fomos andando e rapidamente chegámos à ponte Erasmus, também ela uma expressão da arquitectura moderna/pós-moderna da cidade. Pelo meio fizemos uma curta incursão pela maior livraria da Holanda (e a maior que já vi até hoje, maior até que a Foyles em Londres), a Selexys Donner, com 6000m2. Foi curta porque, para variar fecha às 17h ao sábado…
De volta, à procura de um local para jantar passámos pela Beurstraverse, que é um dos locais centrais de consumo em Roterdão, onde estão as lojazinhas todas de roupa tipo mangos, e afins (não, não tem Adolfo Dominguez…).
Procurámos um lugar para jantar, jantámos num mexicano algures perto de um ringue de patinagem no gelo, ao som de ricky martin e jenniffer lopez e afins (para eles o méxico é isso e ficam felizes assim). Depois, já com o Norbert connosco, perguntámos por um sítio qualquer agradável onde podéssemos ficar até às 24h, que era quando o pessoal de Delft iria chegar para ir sair a um “club”, que é como quem diz discoteca.
Acabámos por ir parar a um Irish Pub que, surpresa das surpresas, tinha música ao vivo.
À meia noite, lá fomos para a estação de comboios esperar os portugueses e os outros todos de diversas nacionalidades que vinham para Roterdão para a tão famosa discoteca. Escusado será dizer que o grupo internacional chegou à 00:05 e os portugueses às 00:20 ainda estavam em Delft. Conclusão, toda a comunidade internacional esperou pelos portugueses atrasados.
Todos juntos e depois de muito (pouco) praguejar, lá fomos.
À entrada já dava para antever o interior da discoteca mas, ainda assim, entrei expectante, poderia-me surpreender. Perto da entrada, dois armários vestidos com sobretudos pretos, para terem um ar mais civilizado e polido, olharam para nós e perguntaram-me: “where are you from?”. Pensei logo que não iriamos entrar, lembrando-me da semana passada em Delft em que um porteiro me disse a mim e ao Daniele, quando tentávamos entrar num banal café à noite: “Never seen you before.”. E eu: “No…”, meio incrédulo com a pergunta/afirmação completamente surrealista. “Then I cannot let you in…”. Meios atónitos e perplexos com tamanha rapidez lógico-dedutiva, desistimos de argumenta, percebemos que estávamos perante um duplo phd em lógica analítica e lógica fuzzy. Felizmente não entrámos porque acabámos por ir ao muito melhor Bebop Jazz caffé, com uma atmosfera muito mais acolhedora.
Bem, voltanto a Roterdão e à entrada na discoteca (Hollywood, belo nome), que deixei-nos parados ao frio da noite de Roterdão. À pergunta de “Where are you from?” do porteiro, respondi com medo, tentando ocultar as nossas origens mediterrânicas: “From Europe…”. Ao que ele insistiu, querendo saber pormenores: “But from where?”. O Danielle insistiu: “From all over Europe…”. Mas o porteiro queria mesmo saber e a sua voz era agora firme e assertiva: “Yes, but from where exactly?”. Enchi-me de coragem e enumerei: “Portugal, Italy, Germany, Greece, Turkey, Belgium, The Netherlands, …”. Um enorme sorriso, quase infantil surgiu por debaixo dos seus bigodes sérios e disse: “Ohhh! Come in, come in…”. Se calhar chamava-se Bart Van Silva ou Bart Van Micollini, nunca saberei.
Conforme entro na discoteca olho para o lado e vejo o B. A. dos A-team, versão holandesa a vociferar: “I love you, come in…”. Olhei para o Daniele, ele olhou para mim e o nosso olhar meio medo, meio surpreso, meio para-onde-é-que-estamos-a-ir, disse mais que qualquer palavra.
Não tenho palavras para descrever esta discoteca. Era cheia de andares e espaços paralelos, mas todos iguais. A música era uma martelada tão boa como uma boa feira de carrinhos de choque de Alguidares de Baixo. Em vez de desdentados a dizer “tira o 23 da pista”, tem uns tipos altos louros ou altos e negros, com fios de ouro ao peito a gritar: “put your hands in the air, put your hands in the air…”. E depois apareciam umas bolinhas de sabão sabe-se lá de onde. Muito bom! Para juntar a tudo isto, há que dizer que cada música só durava 30 segundos, depois mudavam para outra. QUAL É A IDEIA? Um meddley? Uma lavagem cerebral? Uma instalação artística?
Enfim, foi engraçado se for encarado como estudo sociológico, de resto, digamos que era de evitar…
Supostamente, esta discoteca ganhou os prémios de melhor discoteca da Holanda de 2006 e 2007. Comentário do Daniele: “I don’t want to see the wors disco in The Netherlands…”.
Fomos para casa às 04:00, meio contentes, meio desconsoldos com a noite.
Para a semana vamos de bicicleta até à praia em Den Haag (Haia).