A explosão dos comuns?

Opensource:

“is a development method for software that harnesses the power of distributed peer review and transparency of process. The promise of open source is better quality, higher reliability, more flexibility, lower cost, and an end to predatory vendor lock-in.”

opensource initialive

http://www.opensource.org

Muito se tem defendido a propriedade privada, quer de bens físicos quer intelectuais. Tem sido sempre vista como um pilar imprescindível à sustentação da inovação, do desenvolvimento, do progresso. O grande argumento para a sustentação vem do facto de apenas a propriedade privada assegurar o incentivo necessário a que as pessoas criem algo novo, seja material, seja intelectual.

É interessante ver como, cada vez, surgem projectos, bastante sólidos, que contradizem estas aparentes verdades irrefutáveis.

Não vou entrar no software livre, já tão batido. Encontrei recentemente este artigo sobre uma empresa italiana chamada Arduino que concebeu, desenvolveu e agora contrói e vende uma placa controladora, sim daquelas que, por exemplo, os estudantes usam para fazer projectos de sistemas de aquisição de dados. É um microprocessador, com uma linguagem de programação própria, desenvolvida pela empresa, e uma série de possibilidades de entradas e saídas. Nada de muito inovador, tirando o facto de ser bastante bem recebida pelos utilizadores e, pasmem-se, ser completamente aberta. Sim, todos os esquemáticos estão disponíveis para download e os criadores incentivam vivamente a cópia e a produção em larga escala.

 Curioso, não é?

1- O facto de a empresa estar funcional, emprega pessoas e continua a vender produtos.

2- O facto de os criadores não terem como objectivo único o lucro, mas sim a satisfação das pessoas que utilizam o produto deles e o desenvolvimento do produto.

Um bocado contrário aos valores que nos entram pelas orelhas dentro diariamente.

No artigo é dito relativamente a um dos criadores da placa:

“describes himself as a left-leaning academic who’s less interested in making money than in inspiring creativity and having his invention used widely. If other people make copies of it, all the better; it will gain more renown.”

 Felizmente parece que há outros valores pelos quais as pessoas se regem

 -artur palha

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2 Responses to “A explosão dos comuns?”

  1. Guillaume Riflet Says:

    As placas Arduino são muito fixes. Durante a Shift08 (http://shift.pt) houve uma workshop com elas. São o hardware electrotécnico de eleição dos hackers europeus da nova vaga. Eu estive noutra workshop com o Tijmen Schep. Um artista/hacker holandês do wireless.

    Conheces o conceito de Creative Commons? Muito bom.

    Na minha opinião, desde que apreendi Platão e o Mundo das Ideias que descobri que nada é inventado e que tudo é descoberto. A partir desse ponto achei que era tão ridiculo reclamar posse duma terra apenas por pisá-la pela primeira vez, à imagem do Cristóvão Colombo ao descobrir a América, como era reclamar posse dum texto escrito ou duma ideia aparentemente original. Nada é original. Tudo nos influencia. Somos uma gigantesca comunidade global e co-criativa. E a mim, tudo o que me interessa, é de maximizar a superfície de interacção entre as meninges.

    A propriedade material ou intelectual são perfeitas aberrações sem sentido. Aliás, sempre o pensei desde que copiava software pirata em disquetes ou descarregava músicas no Napster.

    E a net é o instrumento que mostra até que ponto é que as patentes e os copyrights das casas de publicação (de software, de livros ou de música) são ridículos! “Re-think copyright” dizia aquele antropólogo brilhante do vídeo do “The Web is US-ing US”,

    O DRM é a maior barbaridade conceptual do século XXI. Um erro crasso e insustentável que cairá sobre o próprio peso do ridículo que encerra em si mesmo.

    E eu rejubilo interiormente sempre que vejo algum retrógada a tentar impor alguma forma de travão a essa força da natureza que é a web, um espaço comum de dados, informação e ideias que pertence a todos.

    Portanto eu reclino-me e aprecio a visão das casas de publicação lentamente a rolarem uma a uma…

  2. artur palha Says:

    Grande Guillaume!

    Estamos completamente sintonizados. É incrível ver como actualmente grande parte dos projectos mundialmente reconhecidos são do domínio público. Wikipedia, Linux, Firefox, Arduino, Python e outros. Penso que está mesmo a haver uma explosão dos comuns. No software é mais fácil (ou menos difícil) requer menos investimentos. Já ho hardware é mais difícil, porque o investimento é maior. No entanto as empresas começam a ver que o poder criativo massificado é muito mais lucrativo. Para não falar no que tu disseste: “maximizar a interacção de meninges”. Para mim, e acho que para ti também, o objectivo é esse mesmo, desenvolvimento humano. Isso só se consegue com toda a gente a pensar e a poder hackar tudo, livremente.

    Sim, creative commons conheço bastante bem. Já leste o Lawrence Lessig? É o “pai” ou um dos pais do creative commons. Ainda só li o “The Future of Ideas: The Fate of the Commons in a Connected World”, mas tenho o outro “Free Culture: The Nature and Future of Creativity” (foram os dois uma prenda da Ana). O gajo é bastante referenciado no XKCD.

    http://www.amazon.com/exec/obidos/search-handle-url/ref=ntt_athr_dp_sr_1?_encoding=UTF8&search-type=ss&index=books&field-author=Lawrence%20Lessig

    Discordo de alguns pontos de vista dele, ligados à economia em geral (ele acredita ainda um bocado na mão invisível do mercado, à lá Adam Smith e Milton Freedman), mas no essencial da posição dele quanto à propriedade intelectual concordo. Se quiseres empresto-te os livros, em Dezembro.

    Só para me gabar, agora estou a fazer um sofá, fiz o projecto todo, e vou montá-lo. Achei que era ridículo comprar um já feito no IKEA que não gostava muito. Por isso decidi fazê-lo. No entanto o investimento de tempo é grande, principalmente no projecto, senão não ficam bem. Por isso decidi fazer um projecto a sério. Durante esta semana vou terminar de construir, vou colocar aqui os planos todos com as peças e fotos da construção. Quem quiserer copiar e melhorar que o faça, não tem de partir de onde eu parti.

    Para mim a chave é essa mesma o melhorar, não inventar de novo a roda, como disse o Newton:

    “If I have seen further it is only by standing on the shoulders of Giants.”

    Não acho que eu seja um gigante, mas muitos como eu fazem gigantes. :-)

    Para terminar, isto faz-me sempre lembrar a nossa luta em Física para o banco de trabalhos, fruto da tua ideia e do Paulo.

    Abraço!

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