Documentário: Money as debt
O meu amigo Guillaume encontrou este vídeo e, numa troca de emails sobre o nosso sistema económico recomendou-me este vídeo. Vi-o hoje, já pela madrugada dentro. Está muito interessante. É espantoso como a questão é tão simples mas não está presente em quase ninguém. A mim esclareceu-me algumas ideias.
Uma coisa interessante que o filme não foca, ou só muito superficialmente, é o papel do lucro na questão do dinheiro e a sua ligação com o crédito. Sim, porque não concordo que os únicos maus da fita são os banqueiros.
Era interessante fazer um estudo de fluxos de dinheiro e ver que numa empresa os produtos postos no mercado somam, por exemplo 1000€, dos quais 600€ vão para pagar o valor incorporado nos produtos através do trabalho e as matérias primas, os outros 400€ são o chamado lucro. A questão é que os produtos colocados à venda pela empresa e que devem ser consumidos, essencialmente pelos trabalhadores (são a maioria da população) não podem ser totalmente consumidos porque o dinheiro que receberam (600€) é menos que o valor total dos produtos postos em circulação (1000€). Gera-se aqui um problema de sobreprodução.
A questão que coloco é esta: até que ponto a questão do crédito não é uma questão de “que maus são os banqueiros” mas sim que peça chave são estes banqueiros para o esquema irracional deste sistema económico?
October 24th, 2008 at 12:04 pm
Grande Artur:
Os 400€ de lucro que não são distribuidos directamente aos trabalhadores são retornados aos investidores que, pagos os impostos, podem alocar esse dinheiro a consumo ou a novo investimento. O que alocarem a consumo pode mitigar a questão da sobreprodução para manter o sistema em equilíbrio.
O problema central a seguir é a questão social (e económica) de não ser a maioria (os trabalhadores) a investir, pelo que a minoria que de facto investe e recebe aquele lucro não consome em proporção, o que faz acentuar o feedback sempre no mesmo sentido (o de terem cada vez mais poder de investimento e capacidade de retorno).
Isto digo eu, que sou “maçarico”
nestas coisas todas.
October 24th, 2008 at 1:12 pm
Olá Paulo.
Hehehe… Maçarico, já lá vão uns anitos desde que adicionei essa palavra ao meu léxico.
Concordo contigo na parte do investimento e do consumo, se todo o guito fosse usado para consumo e investimento. A questão que queria dizer é que um dos objectivos é a acumulação de captital. Conforme as empresas vão crescendo essa acumulação torna-se maior, daí ser um sumidouro de dinheiro em circulação. Esta era a minha ideia.
Exemplo: o Bill Gates tem uma fortuna de cerca de 50 mil milhões de dólares. Esse dinheiro não é todo bens que ele adquiriu nem investimentos, é também dinheiro guardado no banco, fora de circulação.
Sempre que há um ciclo de produção, de matéria prima para o produto final há sempre um resultado negativo de guito que fica nas mãos de alguém porque é guardado no banco.
Sim, concordo completamente com a questão social (e económica) ser importante.
Gostei bastante deste filme, o Guillaume encontra sempre estas coisas interessantes.
Abraço
October 24th, 2008 at 2:25 pm
Oi Artur,
Ainda não tive oportunidade de ver o filme, que tou no trabalho - por isso se estiver a desconversar avisa.
Quanto ao guito, há uma coisa que não percebo na tua lógica:
Exemplo: o Bill Gates tem uma fortuna de cerca de 50 mil milhões de dólares. Esse dinheiro não é todo bens que ele adquiriu nem investimentos, é também dinheiro guardado no banco, fora de circulação.
O dinheiro no banco pode estar parado? Dinheiro no banco=investimento (com mais ou menos risco, não é? (mesmo os depositos à ordem dão liquidez ao banco, imagino). Na minha opinião, o capital alimenta sempre a economia, nunca sai de circulação.
Paulo
October 24th, 2008 at 11:26 pm
Olá Artur e Paulo,
Primeiro que tudo, quem encontrou o filme foi o J.C., e era a versão original em francês, que ele próprio não compreendeu bem. Quando vi aquilo fiquei siderado!
Eu acho que a questão do lucro e do dinheiro acumulado não é o problema. O problema está, de facto, como mencionaste e bem Artur, na sobre-produção!
Quando há mais produtos a serem propostos do que existem compradores interessados então entramos em cenário de crise, porque de repente, as dívidas contraidas pelos investimentos que geraram essa sobre-produção passam a valer zero! E todo o dinheiro posto em circulação pela emissão dessa dívida, é dinheiro que arde e perde todo o seu valor, distribuido equitavelmente pelo pool de dinheiro em circulação (+inflação). Por outro lado, os credores, que são os bancos e depositários, perdem esse dinheiro. Acumular capital e po-lo fora de circulação não tem problemas, desde que não haja sobre-produção.
Sobre-produção de casas, faz cair o seu preço de venda. Sobre-produção de trigo, desiquilibra o preço do trigo e impede os produtores de recuperarem o que gastaram para produzir o trigo.
Num comentário que o Paul Grignon pós no Vimeo sobre o documentário “L’argent-Dette”, descrevia-se como a guerra é excelente para destruir massivamente a sobre-produção, e que ciclos de “… re-construção, sobre-produção, destruição pela guerra, re-construção …” eram importantes para manter essa economia da produtividade cada vez mais frenética para poder pagar essa dívida com juros a crescer cada vez mais celeramente. Arrebenta a bolha quando se atinge sobre-produção (housing prices burst in the US) ou então cria-se uma guerra para aliviar a bolha e depois reconstruir por cima. Os periodos de maior crescimento e de economia mais saudavel que o mundo viveu foi sempre apos as grandes guerras… pensem nisso.
Tudo isto é fascinamente, mas “follow the money” não clarifica. “Follow the commodities”! Eu acho que essa é a chave!
Abraços e continuem interessados, que eu também!