O portátil Magalhães ou como se fazem escolhas enviesadas

Recentemente entrei em discussão com um blogger que também é repórter do Expresso, chamado Paulo Querido, tudo circulou em torno deste de um post intitulado Magalhães o sucesso público. Podem ler o post e ver melhor o que é dito lá, mas resumindo, é defendido que é algo excepcional para o desenvolvimento do país, não só porque estimula as crianças, eliminando a info-exclusão, como também é um grande impulsionador do desenvolvimento tecnológico do país porque o computador é feito em Portugal.

Não vou entrar nos detalhes da discussão toda, vou-me centrar na parte do desenvolvimento tecnológico do país. O Magalhães é um computador portátil desenvolvido pela Intel, baseado no OLPC, mas com uma arquitectura completamente fechada. Em Portugal iremos apenas assemblar peças que já vêem pré-feitas de outro lado qualquer. Acresce a isto o facto de não ser possível aceder aos blueprints do computador. Resumindo, não há qualquer benefício para o país em termos de desenvolvimento tecnológico, tanto como uma fábrica da Volkswagen nos permitiu desenvolver um carro português.

O mais interessante é o facto de existirem alternativas completamente abertas de computadores portáteis com características técnicas semelhantes, como por exemplo o projecto da VIA, openbook. Se esta plataforma tivesse sido escolhida parao investimento do Estado seria talvez um bom pontapé de saída para algum desenvolvimento tecnológico em Portugal. Esta sim, poderia criar a “semente do hacker” (como diz o Paulo Querido). Aí sim, talvez pudéssemos ver universidades a desenvolverem, a partir do que já existe, nova tecnologia. Poderíamos deixar de ser macaquinhos de imitação.

Era bom…

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4 Responses to “O portátil Magalhães ou como se fazem escolhas enviesadas”

  1. Paulo Querido Says:

    Recomendo-lhe que volte a ler aquilo tudo. De preferência com a cabeça, em vez de com o coração. Vai ver que lerá coisas completamente diferentes das que aqui diz que lá estão publicadas.

  2. Artur Palha Says:

    Paulo Querido

    O que foi e é dito pelo Governo é, essencialmente, o que eu disse acima. Quanto ao que o Paulo

    Querido disse, vou citaralgumas frases, se bem que citações fora do contexto enviesam sempre,

    daí ter feito o link para o seu post, nada melhor do que cada pessoa ler o texto integral por

    si, as minhas interpretações podem estar erradas. Mas diz:

    1- “[relativamente ao Magalhães] sucesso público da melhor iniciativa do actual governo em

    matéria de sociedade da informação e respectivas tecnologias e economia está no brilho do olhar

    dispensado por quem passa por ele na FNAC.”

    2- Refere que o público está “indiferente às “críticas” estéreis acerca do “marketing político””

    3- “Em quase 30 anos a segir a micro-informática, é a segunda vez que vejo um aparelho com

    potencial para estimular a criatividade informática a uma geração (ou duas). Portugal teve um

    hiato de uma geração condenada a usar as ferramentas impostas, sem forma de criar as suas

    ferramentas, de dar vazão à curiosidade.
    Não estou a dizer que o aparelho vai mudar isto. Nada muda isto, excepto a vontade colectiva.”

    4- “O Magalhães é o primeiro produto informacional (ou relacionado) do Estado português que é

    livre [a bold] — e só por isso já devia ser saudado. Com o Magalhães, as nossas crianças não são

    obrigadas pelo Estado a usar o software de um só fabricante. Podem escolher. Gostava de ter

    visto os habituais críticos do Estado realçarem este ponto, que é um ponto a favor do cidadão,

    um ponto a favor da transparência de processos. Não é um ponto pequeno: toda a relação

    informacional do Estado com o cidadão devia garantir a livre escolha, o que não sucede.”

    5- “O Magalhães é, também, para já, um sucesso industrial, caso raro no país. Mas fica para

    outra altura.”

    Vou tentar desmanchar estes argumentos e mostrar que porque não concordo com estas afirmações (e

    o post que escreveu:

    1- Penso que não estamos a discutir a iniciativa do Magalhães abstractamente. Quando digo

    abstractamente digo analisá-la fora to contexto em que é feita: Portugal é um país que se

    encontra na cauda da Europa em termos de desenvolvimento tecnológico, industrial e económico.

    Portugal não é um país riquíssimo. Mais ainda, o sistema educativo tem ainda muitas lacunas por

    resolver, lacunas básicas como “falta de professores e aquecedores” (como disse num dos

    comentários ao seu post). É claro que, abstractamente, esta medida é melhor que nenhuma medida.

    É melhor uma criancinha ter um computador do que não ter. No entanto, penso que cingirmo-nos

    apenas a este nível de discussão é bastante redutor. A discussão e a crítica que faço é: perante

    o orçamente aplicado a esta medida (cerca de 50.000.000€) não haverão outras iniciativas, dentro

    do sistema educativo, muito melhores que esta, no sentido em que trazem um maior benefício para

    a sociedade? A minha resposta é sim, existem. Mais que isso, mesmo restringindo-nos a esta

    medida (dar um computador portátil a cada criancinha) existiam outras formas desta medida que

    seriam muito mais benéficas para o país. Por exemplo, como disse neste post, em vez de utilizar

    o Magalhães da Intel, utilizar o openbook da VIA, uma alternativa verdadeiramente livre.

    2- Coloquei esta frase apenas para mostrar a sua posição relativamente à iniciativa do governo:

    aceitação e recusa praticamente total das críticas feitas, chamando-as de “estéreis”.

    3- Fala em ferramentas impostas no passado. O Magalhães é uma ferramenta imposta, não houve

    qualquer discussão pública ou apresentação pública do processo de escolha do Governo, como, por

    exemplo, está a ser feito na Austrália. A questão que fiz e faço é: porquê o Magalhães da Intel,

    que vantagens tem face a outros? Para mim as desvantagens são claras. Fala em “criar as suas

    ferramentas”, penso que começar com um produto que não pode ser alterado é um mau começo, volto

    a falar da alternativa do openbook da VIA e lembrar que o Magalhães vem instalado, por defeito,

    também com windows XP, este é pago pelo estado, sem qualquer liberdade por parte do consumidor

    de dizer, não quero. Qual é a base desta escolha por parte do governo?

    4- Livre? A começar pelo seu processo de escolha nada transparente, pelo próprio hardware que é

    fechado e pelo facto de vir equipado também com o windows xp por defeito, é livre onde? “As

    nossas crianças não são obrgadas pelo Estado a usar o software de um só fabricante.” Podem

    escolher, quando? Quando fazem boot à máquina? Isso é escolha? Alías qualquer computador permite

    isso. Livre seria o contrário, oferecer um computador totalmente opensource (hardware e

    software) quem quisesse outro software adquiriria.

    5- Um sucesso industrial? Só se for o mesmo sucesso industrial que as fábricas de automóveis e

    de móveis do IKEA que existem em Portugal. Volto a dizer o que disse. Este sucesso industrial é

    o mesmo que nos vem vindo a afundar cada vez mais fundo, tornando-nos cada vez mais meros

    macacos de assemlagem e comerciantes. Pelo contrário, se as escolhas fossem feitas com base

    noutros critérios, critérios que têm como principal objectivo o desenvolvimento do país, penso

    que os resultados seriam muito melhores. Estou saturado de ver desperdícios de dinheiro a serem

    encapuçados de investimento sério do Estado.

    Penso que esclareci que não li o seu texto com o coração em vez de com a cabeça. Penso que já o

    Paulo Querido, recorreu bastante ao coração, que acho difícil não ficar embevecido com “Mal me conseguia abeirar da vitrina, sempre rodeada de gente. Todo o tipo de gente. A família modesta, com os olhos da miúda a brilharem e o pai de calções a deixar o interesse sobrepôr-se à timidez. O par jovem, ambos estudantes, ambos interessados nas características. O casal bem na vida, um olho no preço outro na capacidade.”

    É uma imagem bonita e enternecedora, mas é só isso, bonita e enternecedora, não tem qualquer conteúdo e, daqui a uns 3 ou 4 anos, quando os milhares de Magalhães estiverem completamente obsoletos, vamos ver que tudo se esfumou no ar, como sempre, já desde os Descrobrimentos, onde toda a pimenta se foi em tecidos de seda e similares. Não vai ficar aqui nenhuma fábrica que possa fazer computadores portuguesas. É pena, porque 50.000.000€ é muito dinheiro e há muitas pessoas extremamente qualificadas em Portugal que poderiam mudar o país.

  3. Paulo Querido Says:

    Fiquei a perceber a sua dor de cotovelo. É defensor de outra solução de hardware. Ok.

  4. Artur Palha Says:

    Hehehe! Só rindo deste seu comentário. Só para esclarecer, não tenho nem pretendo ter nenhuma empresa de hardware. Sou físico e faço investigação na área de fluídos e não tenho vocação nenhuma para empreendedor de empresas.

    Acho que reduzir a minha argumentação a “dor de cotovelo” é um bocado falta de argumentos. Estava há espera de mais de si.

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